O SOL A PINO É UM CANIBAL CROMÁTICO

Eder Chiodetto

Catarse cromático-luminosa nordestina. Os olhos acesos do artista detectam na paisagem a luz-cor movente. Ao abrigo do sol a pino, uma família ostenta prosaicas sombrinhas coloridas, como quem conduz pedaços de telas de Delson Uchôa em um passeio. Polyester tingido, descartável, mimetizando cores, genes e entropias tropicais. Made in China.

Insight! A performance casual da família nordestina consiste, sem sabê-lo, em tingir a paisagem com formas arredondadas e metáforas florais, sob os efeitos enebriantes da luz do sol em ângulo reto. O sol, esse astro, agente e reagente da cor. Canibal cromático!

Fantasias heliotrópicas: as sombrinhas são antenas que em movimentos ascendentes e retilíneos, conectam a terra e o céu, o solo e o sol. Flores a germinar na indomável natureza do sertão, aqui vista como tela de fundo, como plano à espera de ser matizado por vermelhos venosos e oxigenados, azuis atemporais e verdes-seiva cítricos que se emancipam, ao comando dos raios solares, da paleta de cores de obviedades desgastadas.

A falsa seda de polyester chulo, fecunda no interior do sertão brasileiro, um atávico, proeminente e exuberante “Bicho da Seda”. O Bicho, vaidoso de suas belezas furta-cor, é um ilusionista que cria formas, se metamorfoseia em flores, árvores, rios, estradas, outros bichos. Roteiros oníricos, aparições fantasmáticas. O que se espraia e ocupa espaços durante o dia, se agrupa e ganha novas feições quando percebe a amplidão negra do manto da noite.

Entre suas metamorfoses, o Bicho da Seda transita também entre signos da contemporaneidade, das assimetrias sócio-econômicas, das ideologias que subjugam o homem, da força de trabalho que gera luz, mas vive à sombra dos podres poderes. Ao se nutrir do sol e criar o dom de iludir na paisagem, essas flores imprevisíveis representam uma revanche da arte a esse estado de coisas.

As sombrinhas resignificadas pelas dimensões simbólicas do artista, são como pixels infiltrados sorrateiramente na paisagempintura. Pinceladas rebeldes que se transferiram da tela do pintor para a superfície compactada da resina do metracrilato. Ecoam nessas telas de resina as estratégias pelas quais Delson Uchôa segue constituindo sua iconografia vigorosa, na busca do entendimento da universalidade do seu microcosmo, e da identidade de um lugar, pela metáfora da cor, da luz, da febre que transforma a cor-luz em vertigem.

Mas o Bicho é inquieto, workaholic, andarilho. Manifestação autoidêntica do artista? Germinou no imaginário do artista, vagou e ainda vaga pelo universo solar, mas também retorna para deixar que seu couro seja retrabalhado no misto de ateliê e sala de cirurgia desse médico-artista. Completa-se o movimento de uma espiral, sem que isso incorra em pretender fechar um ciclo: as cores sedutoras que servem para o sistema chinês engolir o mundo em escala industrial, retornam ao ponto inicial de sua gênese, para se acomodar harmonicamente em sua estridência e voluptuosidade, nos traçados e pinceladas de outras camadas com as quais o artista imanta o couro de polyester. Decodificação genética da paisagem e da arte. Antropofagia invertida, tropicalismo importado da China. Segundo o artista, “paisagens transgênicas”.

Delson Uchôa © 2015 | Todos os direitos reservados.